Camões - Soneto - Ah! minha Dinamene! Assim deixaste

Ah! minha Dinamene! Assim deixaste
Quem não deixara nunca de querer-te!
Ah! Ninfa minha, já não posso ver-te,
Tão asinha esta vida desprezaste!

Como já pera sempre te apartaste
De quem tão longe estava de perder-te?
Puderam estas ondas defender-te
Que não visses quem tanto magoaste?

Nem falar-te somente a dura Morte
Me deixou, que tão cedo o negro manto
Em teus olhos deitado consentiste!

Oh mar! oh céu! oh minha escura sorte!
Que pena sentirei que valha tanto,
Que inda tenha por pouco viver triste?

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Sobre o poema:

Este é um poema lírico, ou seja, que manifesta o subjetivismo do poeta, seus sentimentos, anseios, angústias.
O poema é sobre uma figura feminina que fez parte da vida do poeta, Dinamene - que foi namorada de Camões e, segundo algumas fontes, conheceram-se em Macau. Camões, no regresso para Portugal, trouxe-a consigo, mas houve um naufrágio, ao qual Dinamene não conseguiu sobreviver.
Neste poema é visível o estado de espírito de Camões, a sua tristeza e a saudade que sente pela amada.
"O tema da saudade da amada morta ganha contornos mais subjetivos, próximos do romantismo, ou do barroco, pelo tom exaltado, exclamativo, sentimental, e pela atmosfera soturna que envolve os sentimentos do poeta. Expressões como “dura Morte”, “negro manto”, “escura sorte”, “viver triste” não soa - riam estranhas, por exemplo, na poesia de Álvares de Azevedo ou de Junqueira Freire. Contudo, a adoção da forma fixa do soneto, o sistema quinhentista das rimas, a métrica decassilábica distanciam a composição do liberalismo formal dos românticos, inscrevendo-a na tradição clássica." ( Objetivo)

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