CAMÕES - Soneto - O dia em que eu nasci, morra e pereça,

O dia em que eu nasci, morra e pereça,
não o queira jamais o tempo dar,
não torne mais ao mundo, e, se tornar,
eclipse nesse passo o sol padeça.

luz lhe falte, o sol se [lhe] escureça,
mostre o mundo sinais de se acabar,
nasçam-lhe monstros, sangue chova
o ar, a mãe ao próprio filho não conheça.

as pessoas pasmadas de ignorantes,
as lágrimas no rosto, a cor perdida,
cuidem que o mundo já se destruiu.

Ó gente temerosa, não te espantes,
que este dia deitou ao mundo a vida
mais desgraçada que jamais se viu!

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Análise do poema:

Conforme o estudo de Welton Pereira e Silva publicado no Portal de Revistas da USP:

"Mesmo não fazendo citações diretas às Sagradas Escrituras, o poema O dia em que eu nasci, morra e pereça faz uma intertextualidade com o Apocalipse de São João, ou ao menos com as idéias ali expressas, já que o soneto traz intrínseca uma mensagem apocalíptica, do fim dos tempos. No soneto, repleto de imagens amedrontadoras, o autor compara o dia de seu nascimento ao dia do Juízo Final:

Qual o sentido desta maldição? O que significa amaldiçoar o dia do nascimento? É o mesmo que maldizer-se a si próprio, e desejar (pela negação do dia em que apareceu) não ter nascido. Aliás, os dois últimos versos são claríssimos: “que este dia deitou ao mundo a vida / mais desgraçada que jamais se viu!” (MATOS, 1987, p. 35)

Embora em uma análise mais superficial, o poema pareça não fazer nenhuma referência direta a algum trecho bíblico, a autora acima citada nos diz que o primeiro verso foi extraído do livro de Jó, mais especificamente do capítulo três, versículo primeiro, onde se lê: “Então Jó abriu a boca e amaldiçoou o dia do seu nascimento, dizendo: Morra o dia em que nasci e a noite em que se disse: Um menino foi concebido” (Jo: 3, 1). Nesse ponto notamos claramente que o sujeito do poema considera sua vida tão amaldiçoada quanto a de Jó, personagem bíblico que perdeu tudo o que possuía por um teste feito por Deus e pelo Diabo para provar sua lealdade àquele. Aqui se reforça o título dado a Camões de Poeta Maldito, amaldiçoado."

(A RELIGIOSIDADE DO POETA MALDITO: ASPECTOS BÍBLICOS E DOUTRINÁRIOS NA LÍRICA CAMONIANA -  Welton Pereira e Silva)


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